Daí que nessa época do fim do ano, eu costumava escrever um texto como que pra fechar o livro caixa, sabe? Mas o tempo foi passando e o cansaço era tamanho que eu fui adiando, adiando e agora passou. Chegou 2010 e, por força do destino, me deu a vontade de escrever o texto agora, nas primeiras horas do novo ano.
Eu fiquei maquinando o que iria escrever, já que não gosto de ficar sendo muito profético, ainda que seja um bocado inevitável. Minha única meta pra este texto é que ele seja rápido e que não afugente ninguém – quero que ele seja lido.
Vamos lá. Para situar todo mundo e eu não parecer um lunático, vou compartilhar um programa ao qual assisti. Em 24 de Junho de 2009, a psicanalista Maria Rita Kehl foi ao Café Filosófico tratar da relação entre Aceleração e Depressão e refletir sobre a pergunta “Temos fôlego para encarar a pressão dos relógios apressados dos dias de hoje?”. Ela passa por diversos conceitos filosóficos e psicanalíticos, mas eu queria destacar algumas partes do discurso dela antes de entrar na minha profética mensagem de virada de ano.
Ao citar um trecho da música “Sinal Fechado” do Paulinho da Viola, ela inicia uma reflexão sobre a nossa relação com o tempo. “Eu também tinha algo a dizer, mas me foge à lembrança”. Para tentar entender isso, ela toma um filósofo do final do século XIX, Henri Bergson: “No livro ‘Matéria e Memória’ ele examina a relação entre a matéria corpo, a memória atravessados por essa terceira instância (…) que é o tempo”. Desse livro, ela comenta o conceito de Duração.
Ela diz que “a Duração é algo mais interessante que o Presente. O Presente, na verdade, não existe. O Presente é uma mínima partícula que vem, empurrada pelo Passado e já roendo o Futuro. A sensação de estar no tempo presente se dá por essa experiência subjetiva, imensurável a qual o Bergson chama de Duração. Entre um antes e um depois, a única coisa naturalmente experimentada é a própria Duração. O que prolonga o antes e o depois? O que é que nos dá um sentimento confortável de continuidade da existência?” Algo que é, inclusive, muito valorizado pelo psicanalista inglês D. W. Winnicott.
Então, ela responde “em parte é a Memória. Porque o Futuro não existe. O Futuro é só uma projeção, ele só existe enquanto projeção; no Futuro não há nada a não ser a nossa fantasia. Mas eu só posso projetar pro futuro alguma coisa desejável e não ficar simplesmente aterrorizado porque no fim da linha é a morte, se eu tiver a memória de alguma coisa que me constituiu e vem me constituindo até aqui desde o Passado. É isso que dá a Duração, entre esse antes e esse depois; e esse depois pode ser agora, e agora e agora; e cada vez que eu falo ‘agora’, eu já passei por um depois, mas um depois que se prolonga e a gente tem uma certa confiança de querer continuar nesse prolongamento”.
Para continuar a discutir a relação homem-tempo, ela finalmente entre no assunto que eu queria chegar. Em uma das cartas ao seu primeiro interlocutor, William Fliess, Freud escreve que “a sensação de passagem do tempo se produz pela relação entre três inscrições psíquicas diferentes: os signos perceptivos, que seria o presente – eu estou percebendo vocês agora, já; as marcas mnêmicas, quer dizer, eu percebo vocês agora, mas eu sei o que eu estou fazendo aqui, eu sei de onde eu vim, eu sei porque eu vim, eu sei o que vim falar etc; isso são marcas mnêmicas; e a memória inconsciente (…) ela não dá só essa lembrança imediata de porque eu vim, que eu estou fazendo etc., mas ela ilumina um pouco essa situação com algumas associações, com algumas sensações que podem ser prazerosas ou angustiantes, às quais eu não tenho acesso imediatamente, mas que estão também fazendo parte dessa sensação de estar num tempo que transcorre”.
“Essa permanente ligação entre essas três inscrições, em série – memória inconsciente, as marcas mnêmicas e os signos perceptivos do presente – é que permite criar (é muito bonita a expressão do Freud) a representação da obra psíquica de sucessivas épocas da vida; a vida como uma obra psíquica. Quer dizer, olhar para sua vida e dizer ‘aqui tem uma história, uma obra, uma obra minha, porque eu vivi’”.
Pronto, eis aonde eu queria chegar. Aos sobreviventes, meus parabéns. 2009 foi um ano caótico em diversos sentidos e com picos de estresse e desorientação tão grandes que fariam de uma pessoa o pó. Pelo menos foi o meu caso. Precisei de duas semanas fazendo nada para me recuperar parcialmente. Mas é aí que a fala da Maria Rita Kehl me conforta e, muito mais do que isso, me esclarece: essa é a minha obra.
Fazendo o que tiver que fazer, tomando as decisões que tiver e que quiser tomar e enveredando pelos caminhos que forem, é isso que faz a minha obra ser minha. Lembro de já ter escrito em anos passados o quão ridículo eu achava essa data arbitrária e ocidental tomar proporões monumentais e adquirir uma importância tão grandiosa, sendo que é apenas mais um dia, com os mesmo pássaros, os mesmos cantos, os mesmos raios solares e a mesma lua que todos os outros dias do ano. Mas é inevitável ir contra o significando de encerrar uma Era. Tanto é que cá estou eu, escrevendo para ter um balanço do ano que passou.
Então era isto que eu queria dizer – desculpe se tive que me apoiar em uma transcrição tão grande para fazer vocês entenderem, mas achei tão didático que precisava compartilhar – fechando o balanço 2009-2010, essa foi (e está sendo) a minha obra e o que vai garantir e me dar confiança para imaginar o futuro, fantasiar, projetar e me inserir nele. Os dias foram difíceis, os confrontos foram inesgotáveis, houve situações de completa inércia frente à tanta falta de caráter, ética, humanidade e também houve horas em que nos preenchemos por abraços, beijos, confortos, ditos e não-ditos, mas que, no final, compõem a nossa obra.
Um grande 2010, e que a obra de cada um continue.
Pê, lendo seu texto, lembrei de um trecho de uma música do A. Antunes:
“Decanta em cada canto
Um instante
De dentro do segundo
Seguinte
Que só por um momento
Será
Antes”
Ainda estou refletindo sobre o texto mas uma das coisas que pensei foi que é irracional mesmo uma data qualquer se tornar tão importante, mas se não fosse ela, a sensação criada por essa ligação entre as três inscrições freudianas que você fala, que formam e são a continuação infinita da nossa obra, talvez se tornassem um fardo… Imagine a angústia de não ter “controle” nenhum sobre o futuro, de não ter onde apoiarem fatos comuns a todos uma coisa que existiu no passado. Essas tentativas de padronização e organização são características humanas, não naturais. E apesar de ilusórias, nos ajudam a pontuar a existência de uma maneira mais palatável.
Enfim, que a sua obra continue do jeito mais doce e sereno possíveis!
Passei para dar o ar da graça e acabei sem ar.
Bom texto e ótima reflexão, Peve.
Grande beijo!