Eu tava enrolando pra escrever um texto de fim de ano, mas agora me toquei do por quê. Não finalizei o ciclo ainda, não parei pra respirar, pra sentar e dizer: “ó, é isso, acabou, agora vamo pro próximo”.
(Considerando uma pausa técnica)
Mas daí, ontem, quando voltei da ceia de natal, eu liguei a TV e vi com minha tia, avó e mãe uma entrevista da Oprah com a J. K. Rowling na Escócia (dá-lhe Natal com Oprah). E, perto do final da entrevista, elas citaram o discurso que a autora deu em Harvard (2008) e uma outra reportagem a respeito do Michael Jackson e do sucesso de Thriller (“The ‘Thriller’ Diaries”, da Nancy Griffin, que saiu na Vanity Fair em 07/2010). [percebam que esse post já tem um caráter retrospectiva, ein?]
Bom, considerando o discurso de Harvard, a escritora fala sobre a potência de um fracasso e como essa experiência é imprescindível ao ser-humano, podendo levar a um sucesso. E, pra rolar uma frase de efeito, sobre como o fundo do poço virou o alicerce para sobrepor-se ao fracasso.
Mas, quando elas conversam a respeito de Thriller, a entrevista tinha guinado justamente para o final de uma fase, com a Oprah terminando seu programa e abrindo sua própria emissora e com J. K. partindo para novas histórias.
O que elas citam dessa reportagem (e que é o que eu gostaria de acrescentar nesse texto) é justamente o fato de conscientizar-se sobre a potência e a temporalidade de uma fase. O sucesso de Thriller, sendo o álbum mais vendido de todos os tempos e, praticamente, inaugurando uma nova relação com os videoclipes, era algo inimaginável no momento de sua concepção, para um Michael Jackson com apenas 25 anos. Assim como o fato de encarar o single/clipe como um fenômeno, afinal, as pessoas saíam nas ruas vestidas de zumbis etc. Ainda segundo Griffin, Michael passaria a vida tentando superar esse sucesso.
É disso que eu quero falar: do fracasso e da superação de sucessos.
Esse ano, rolou trabalhar na 29ª Bienal e foi uma delícia: desde o trrabalho com o público, algo que só tem a ensinar (sempre), até o processo todo de formação, que foi bem longo. Ao todo foram sete meses de trabalho, dos quais mais da metade foi dedicado à sensibilização, avaliação e preparação para o encontro com o público. Além disso, conviver com obras de arte diariamente , obras que você não gostava e que depois passou a achar incríveis e vice-versa, passar todo o dia ao lado de algo que se torna familiar, mesmo sendo um piano transbordando parafina, prumos suspensos, ou uma vulva gigante feita de madeirite, é algo que faz com que você seja forçado a encarar o espaço de trabalho de uma maneira diferente: rever tudo, sempre. E, por fim, e talvez o mais importante, as pessoas que a gente conhece nesse processo. Tanto as que foram ficando no caminho, saíram pra outros lugares, quanto as que você descobre e também as que você re-descobre naquele ambiente. E o melhor de tudo, elas estão ali, na grande maioria, com uma vontade parecida com a sua, pelo menos durante aquelas horas de trabalho.
Mas voltando, teve fracasso nessa história? Inúmeros. Nenhum fiasco, mas fracassos todos os dias. Houve sucessos? Tantos. Mas vejo que o maior sucesso é perceber que esse é um caminho de que eu gosto.
E de resto em 2010? Incontáveis fracassos e sucessos também. Mas acho que o que foi mais importante nisso, foi desenvolver o discernimento sobre o que é um fracasso e o que é um sucesso. E isso é algo pessoal, que compete e varia para cada um de nós.
Considero um sucesso descobrir coisas que eu não quero – agora –, penso nos fracassos de não poder evoluir em tantas relações, em deixar pra trás tanta coisa que queria trazer junto, mas também encaro isso como pertencente a esse tempo, que é onde deve permanecer.

Lembrando de um texto que postei, com o mesmo intuito, na virada de ano pra 2010 (Obra de uma vida, 02/01/2010), eu queria reforçar não só o sentido de continuidade, mas o de reconhecimento também. E isso foi algo que tanto a Oprah como a J. K. Rowling citaram.
Ter tido a noção que Thriller foi um fenômeno talvez teria desencadeado outra postura do cantor frente ao resto da carreira. E é isso que eu quero ter e saber: reconhecer esses sucessos que passaram e encaixá-los nesta fase e saber que isso pertence ao agora. Não adianta tentar repeti-los, pois, nessa lógica de superação eterna, a frustração será inevitável (não que a frustração seja algo puramente negativo). Esse sucesso pertence ao hoje e ele, assim como todos esses fracassos, são alicerce para futuras realizações, constituintes dessa grande obra psíquica de toda uma vida.
O ciclo não se fechou e não se fecha. Apesar desse aparente encaixotamento, as vida não é dividida em períodos históricos com marcos simbólicos como na macro-história. Ela é contínua e um reflexo constante de todo o resto. Por isso a noção dessa temporização não é algo fechado, mas sim algo que auxilia na percepção de razões, de motivações, de olhar para trás, ver agora e mirar pra frente.
Não sei o que será desse ano que se inicia. Tenho minhas metas, algumas bobas, ainda bem, e outras tantas (im)possíveis. Mas é isso: não espero o melhor, o sucesso sempre; espero o que tiver que ser apreendido, ensinado, retomado e proposto. E, se eu não conseguir apreender a noção do sucesso de tudo, que eu veja os fracassos desde o fundo do poço.
A Um Grande 2011.