Linha de pensamento

9 05 2010

Escrever é riscar e riscar é traçar uma linha. Claro que escrever pode ser e é muitas outras coisas. Mas basta saber, agora, que é riscar e inevitavelmente traçar linhas.

Esses dias, a minha supervisora no estágio da bienal, ao discutir experiências de mediação, falou sobre o trabalho da Mira Schendel, mais especificamente de um que não vou saber descrever agora. Na sua fala, ela lembrou do que tinha lido no livro organizado pela Sonia Salzstein, “No Vazio do Mundo”, e disse da ligação entre linha, risco, desejo e vontade.

Depois disso eu lembrei de um curso de arte-educação que eu fiz ano passado e que, em um dos dias, a orientadora falou sobre a natureza da linha e do significado dela e de como ela consiste um limite.

Bem, é claro que uma linha não é só uma linha, mas também… Pode ser só uma linha e conter tudo que uma simples linha contém, que é um mundo inteiro. Não me admira voltar a falar de linha aqui. Tenho claro pra mim que ela é um ponto-chave da minha história poética e um elemento com o qual eu busco me relacionar em vários momentos, do desenho à costura.

Face me. Paulo Delgado 2008.

A linha consiste em desejo e isso pode parecer muito claro para alguns. Desejo e design têm vínculos etimológicos que inferem desígnio e, portanto, intenção, vontade e isso pode ser remontado desde a pré-história, com as marcações rupestres, até hoje. Na esfera do abstrato, do imaginário e simbólico, a linha determina um limite invisível, uma moral e uma ética. Ela tem o poder de estabelecer lados, caminhos e curvas.

Escrever, logo, é riscar um limite, criar lados, rotas, desejos. Além do âmbito verbal, comunica-se tudo isso através das características do traço. Não quero entrar na discussão do real/virtual, mas escrever em um blog, de certa maneira, subverte a concepção de desejar ao escrever. Substitui-se a ideia de risco por um apertar de botões. Sensorialmente isso é completamente diferente e com certeza possui algum efeito igualmente distinto.

Eu gosto de desejar. Gosto de traçar minhas linhas, de riscar palavras, de perceber meu traço fugindo de mim e retornando obedientemente. Por isso a necessidade de escrever. Eu havia deixado essa atividade de lado já tem um tempo e sempre busquei retomar um certo ritmo. O blog é uma tentativa disso: já que passo (passava) grande parte do tempo em frente ao computador, por que não tentar explorar isso a meu favor e não o contrário?

Contudo, a ideia não deslanchou como eu gostaria. Eu já cheguei a ficar mais preocupado com a popularidade do blog e com o número de leituras e comentários do que com a ideia de escrever. O blog e a internet têm esse poder de ser público. A ideia de que isso está aqui para quem quiser ler leva a pergunta de “quem está lendo e o que está achando?”. Isso é suficiente para me deixar curioso e clicar no botão refresh incansavelmente. Além, é claro, de censurar muito do que eu escrevo, ou até mesmo escrever coisas das quais me arrependo de serem públicas .

Com isso, a natureza deste blog obviamente se adaptou – e eu acredito que isso ocorreu sem que eu tivesse consciência – tornando-se mais uma centralização de divulgações como as atualizações de projetos, sites etc. do que um exercício de escrita, reflexão e desejo.

Acho que vocês entendem onde eu quero chegar. Quero retomar a atividade de desejar. Me propus a fazer um caderno amanhã de manhã (não que me faltem cadernos e bem bonitos, por sinal. Agradeço os presentes) para que o desejo comece daí e então usá-lo para escrever. Sempre.

Isso é diferente do simples diário. É um escrever corrente. Um escrever sem cancelas, um desejo sem amarras nem nada que censure. Desejo desejar tudo que puder, sempre que puder. Quero desenhar palavras, coisas, delinear manchas para, então, traçar a minha linha de pensamento, entender minhas vontades.

Acho que deve ser saudável. Recomendo.





Amor e carinho

8 08 2008
Amor e carinho. Tem dias que eu não consigo acreditar em como eu acredito nisso. Pode parecer piegas ou que for, mas eu acredito no amor e no carinho (muito melhor do que na beleza, segundo o Boticário — que propaganda tosca!).

Ontem, indo para a faculdade, eu peguei um ônibus e a pessoa que ficou na minha frente — diga-se de passagem: como o ônibus estava lotado, a pessoa estava realmente perto — tinha o perfume da pessoa por quem fui/sou apaixonado já faz 6 anos. E isso me fez pensar até onde eu levo o meu sentimento e como e o que eu faço para saber se ele é verdadeiro e digno dessa manuntenção. A princípio, na verdade, eu pensei naquela pessoa e em como eu gostaria de ter aquele cheiro. E até me ocorreu perguntar qual o perfume/desodorante que o cara estava usando mas o bom senso e a vontade de preservar a minha integridade física me impediram de fazer isso.

Agora, pensando, eu me espanto com o quão grande é o espaço do olfato na nossa memória e sentimentos. Eu senti de novo tudo aquilo que há alguns anos eu sentia mais fortemente, e isso só por ter sentido aquele cheiro vindo de uma pessoa totalmente randômica. Mas mais curioso, foi o que me aconteceu mais tarde noutro ônibus.

Mas antes de entrar nesse outro ônibus, uma pequena retomada: tem dias (muitos) que eu vejo tanto a falta do amor e do carinho e eu não acredito que eles tenham se acabado ou implodido. Mas ontem eu me dei por mim e reparei que eles existem e que eu acredito fortemente neles. Eu estava nesse segundo ônibus e reparei que não conseguiria chegar onde queria porque naquela hora a passagem não estaria aberta. Eu havia pegado o ônibus errado (ok, ônibus errado não, apenas um que não faria o melhor dos caminhos) por simplesmente querer ficar perto da pessoa querida, da pessoa que desperta calor e sorriso.

Auto-retrato: sem moldura, sem habilidade (RASC), peve

Ontem, com os amigos, fui alegre, não conseguia parar de rir e fazer piadas mesmo a minha cabeça estando em outro lugar, na pessoa querida. Mas meus pensamentos foram interrompidos por um cara que começou a brigar com o cobrador porque, aparentemente, o cobrador tinha dito que o ônibus faria tal caminho e ele não fez e quando o passageiro percebeu isso, ele começou a reclamar com o cobrador e queria saber onde deveria descer agora e enfim… E eu pensei com meus botões, meu âmago — é sério, juro que pensei com ele — que faltava carinho.

Eu conclui que eu tinha carinho e amor, porque, sem querer ser mártir nem nada, eu não sei se conseguiria sobreviver sem eles. Há um coisa neles que ultrapassa a barreira física do corpo e da alma. Parece que eles invadem seus atos e guiam seus lábios. Eles te fazem cordial, sorridente, alegre e persistente. (Ok, agora vou viajar um pouco, se quiser pule a parte em itálico). Foi por isso, graças a essa conclusão, que eu pratiquei ocultismo, ali mesmo. Imaginei meu peito se inflando com uma luz rósea, do colo desprendiam-se luzes brancas e magentas que se concentravam em uma esfera um pouco abaixo do meu queixo. Podem me chamar de bobo ou o que for, mas eu lancei aquela energia no ar e só de ter feito aquilo e de saber que afetei o ambiente, isso me fez sentir melhor.

Um ponto antes do meu ponto (o da estação de metrô), o rapaz desceu e antes de descer ele agradeceu ao cobrador pela indicação do ônibus-alternativo e pediu desculpas. Viu só? Está certo que é pretensão minha achar que foi a minha magia que fez com que o cara agisse assim, mas me conforta pensar assim.

Pois bem, na descida ao metrô eu pensei e pensei mais naquilo e cheguei a conclusão que agora que eu demorei tanto parar achar alguém novo para gostar, alguém de quem eu goste e sinta vontade de ver, ouvir, cheirar e tocar, não é justo que eu deixe esse carinho ir embora. É muito duro gostar de alguém, sofrer as inquietações e se segurar para não fazer as primeiras coisas que dão na cabeça e se passar por um bobo mesmo quando você sabe que se fizesse isso você se sentiria melhor; E é muito pior deixar de gostar fortemente de alguém: é impossível, eu não consigo fazer isso e adoraria que alguém me dissesse como; Mas há algo que consegue ser ainda pior: achar alguém para gostar. É um tarefa de Hércules (e por que não dizer da Grécia toda!?). E por isso, reforço: não acho justo deixar de gostar por insegurança, medo ou prévia desilusão, ainda mais quando o coração ficou tanto tempo vazio.